Páginas

sábado, 3 de novembro de 2012


A visão em torno da bioeconomia

Marcus Eduardo de Oliveira*
A relação nada amistosa entre a economia e a natureza fez surgir, em meados da década de 1960, explicações técnicas que procuravam dar conta da imprescindível necessidade de mudar o processo econômico-produtivo. Àquela altura vislumbrava-se claramente que as constantes agressões ao meio ambiente, fruto da expansiva atividade econômica que fere as fronteiras do ecossistema, geram consideráveis passivos ambientais. Foi no calor dessas discussões que surgiu uma nova visão da teoria econômica que envolvia tanto a biologia quanto a física: a bioeconomia.
O que seria isso? Bioeconomia se configura na base científica da economia. Na essência, pode-se defini-la como um conceito de desenvolvimento que pressupõe novas relações com o meio ambiente, com o planeta Terra em si e com as pessoas.
Federico Chicchi, sociólogo italiano e um dos mais preparados estudiosos desse assunto, aponta que “a bioeconomia refere-se ao processo de captura da vida e à produção da própria vida no interior das regras do discurso econômico”.
Para René Passet, outro renomado especialista no assunto, a bioeconomia é o “novo paradigma da economia”. Esse pensador francês destaca que o conceito de bioeconomia surgiu como consequência do alerta ecológico dos anos 1960/70, que descobriu o processo econômico como uma extensão da evolução biológica.
A termodinâmica e a biológica são os seus fundamentos. O objetivo, diz Passet, “é integrar as atividades econômicas nos sistemas naturais porque as leis da macroeconomia não se reduzem às da microeconomia”. O interesse geral é muito mais do que a soma das partes. Os mecanismos naturais (como o ar, a água, o solo) não têm que ver com as leis de mercado; por sinal, problemas com esses bens comuns e naturais transcendem a lógica das nações e dos mercados. Dessa forma, na visão de Passet, a economia situa-se além de si mesma e vislumbra um novo modelo de desenvolvimento, chamado, pois, de bioeconômico. E esse modelo para se efetivar precisa ser de caráter integrador, caso contrário, malogrará.
Para enfatizar a questão esse seria um modelo capaz de conciliar os interesses públicos, privados e solidários com o interesse amplo e geral, envolvendo o que a macroeconomia tradicional tanto esquece: as pessoas e suas relações com a natureza.
Com isso, enaltecemos que a economia tem tudo a ver com um projeto de desenvolvimento que envolva as pessoas e o capital natural, caso contrário não se sustentará na linha do tempo tendendo, pois, a se desequilibrar logo mais à frente.
As pessoas e o desenvolvimento econômico e humano, em consonância com o aspecto da natureza, precisam andar juntos. Os objetivos econômicos precisam apontar para essa realização. Só há (e haverá) verdadeiro desenvolvimento socioeconômico quando as pessoas forem definitivamente contempladas. De nada adianta buscar o desenvolvimento das instituições, por exemplo, se essas não forem colocadas à disposição das pessoas. São as pessoas que fazem funcionar a economia, as instituições, e, claro, o próprio mercado.
Ademais, uma vez que esse processo macro envolve sensivelmente a participação das pessoas, nada mais normal que abordar as relações dessas para com a natureza, tendo em vista que o homem não é dono do meio ambiente, mas sim seu hóspede e, do meio ambiente depende vertiginosamente para dar prosseguimento ao curso natural da vida.
Infelizmente, esse “hóspede” tem se comportado como aquele inquilino que, descontente com o valor do aluguel, “destrói” partes de sua moradia.
Por esse prisma, a bioeconomia não deve então ser apenas entendida como uma aproximação econômica ao vivente, mas sim como uma aproximação “vivente” à própria modelagem econômica. Essa simbiose necessita ser sincronizada, uma vez que a economia nada mais é que uma atividade de transformação que tem como finalidade precípua satisfazer as necessidades humanas mais elementares. E onde estão mesmo os recursos indispensáveis para esse atendimento? É evidente que se encontra na natureza todo e qualquer recurso necessário para a produção (transformação, na verdade) de bens que suprirá as necessidades humanas. Por fim, nunca é demais aduzir que a economia intervém em três níveis: i) transformação e cálculo; ii) o nível humano; e, iii) o nível natural. Logo, a interface homem-atividade-natureza se realça a todo e qualquer instante.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba
(Adital)

vida maria


A vida continua no seu ciclo normal, temos quer ser a mudança e fazer a diferença.



Dicas sustentáveis

Lente de câmeras fotográficas quebradas viram pulseiras

O designer Craig Arnold criou o projeto re:vision, uma linha de pulseiras e braceletes feitas com a utilização de lentes quebradas. Uma ideia simples e sensacional!!
Fonte: Recyclart

Aparador de livros com caixa de cereal

capa.jpg
Quem tem muitos livros na prateleira sabe que eles podem se transformar em uma grande bagunça se não forem bem organizados. E para ajudar nessa missão, as meninas do blog Uma Aspone Qualquer e do Flickr =Mimi= fizeram um aparador de livro com caixa de cereal usada. Basta uma tesoura e um pouco de criatividade para transformar o que iria para o lixo em um objeto novo e cheio de serventia!
Materiais:
  • Caixa de cereal;
  • Tinta branca;
  • Pincel;
  • Cola para tecido e para decoupagem;
  • Tecido, papel ou tinta para cobrir;
  • Tesoura.
  • 1º passo: Recorte a caixa
    passo01.jpg
    Pegue a caixa de cereal e trace o desenho que desejar. Em seguida, recorte-a seguindo o formato projetado. Com apenas isso seu aparador já está basicamente pronto! Viu como foi fácil? Os próximos passos são apenas para enfeitá-lo e deixa-lo com a sua cara, mas se você gostou desse jeito, já pode começar a guardar seus livros, revistas e apostilas.
    2º passo: Prepare a basepasso02.jpg
    Decidiu continuar? Então passe uma demão de tinta em toda a superfície da caixa. Isso irá esconder os detalhes da embalagem e deixá-la pronta para o próximo passo.
    3º passo: Cubra com o tecido ou papelpasso03.jpg
    Chegou a hora de liberar a sua imaginação! Agora que já tem a base do seu aparador pronta, você já pode cobrir a caixa com os tecidos ou papel escolhido, fazer montagens com gravuras, patchwork, pinturas ou o que mais quiser.

    final.jpg
    Agora é só esperar a cola secar e seu aparador está pronto! Uma ótima ideia de como reaproveitar um material que todo mundo tem em casa e sem gastar quase nada!
    Esta matéria é da Equipe EcoD

    Transformando cintos de segurança em bolsas

    Estima-se que hoje já existam de 1 bilhão de carros no mundo e a produção continua a todo vapor. Só no Brasil são comprados mais de 3,5 milhões de carros novos por ano, é muito carro né? E ai surge a pergunta: Para aonde vão estes carros quando ficarem velhos ou quando não tiverem mais serventia? Enquanto a indústria automobilística não repensa o design e coloca em pauta a destinação dos carros, alguns designers reaproveitam os materiais descartados e os transformam em produtos incríveis.
    O casal Dana and Melanie da Harveys reaproveita cintos de segurança de automóveis e os transforma em incríveis bolsas. As bolsas da linha TreeCycle são feitas com 100% de cintos reutilizados  e as demais bolsas utilizam o cinto em boa parte de sua estrutura. Beleza e inteligência no design e sustentabilidade!!!

    Candelabro é feito com cabides de plástico reciclados

    Uma criação genial e criativa que combina materiais que antes ninguém pensaria em reaproveitar para decoração ambiente mas que no final das contas deram mais certo do que se podia imaginar. Levando alguns cabides de plástico em uma mão e um sistema de ligação elétrica para lâmpadas na outra, o artista Luís Teixeira estava pronto para construir mais uma de suas obras de arte.
    O incrível candelabro feito com cabides de plástico virou peça de decoração para uma sala de estar moderna e descolada. A criação abriu portas para um projeto de design social desenvolvido pelo artista para ensinar novas habilidades a mulheres na prisão.
    Além de informá-las sobre conceitos de design ecológico, ainda as ajuda a ganhar um dinheirinho extra. Materiais reutilizados como pratos descartáveis, discos de vinil e tampas de papelão também estão incluídos no projeto.

    Fonte: Greenstyle

    Ideias para reutilizar canudinhos


    O site Design Rulz fez uma lista com ideias para reutilizar canudinhos plásticos usados. Veja algumas abaixo:
    Abajur com canudinhos coloridos: basta colar pequenos pedaços dos canudinhos em uma cúpula de abajur.
    Luminária: mais elegante, canudinhos brancos são colados ao redor da estrutura da luminária
    Letreiro: usando muitos canudinhos, o letreiro pode ser feito em proporções menores. Basta ir colando os canudinhos no formato desejado.
    Fonte: Design Rulz

    Substituição de isopor por composto biodegradável

    maio 30th, 2011 by Priscilla MoraesLeave a reply »
    Um composto biodegradável que poderá substituir o isopor na maioria de suas aplicações foi desenvolvido pela empresa Kehl, instalada em São Carlos, no interior paulista. Obtido a partir do óleo de mamona, o novo produto foi patenteado com o nome de bioespuma.
    O composto é produzido à base de biomassa, ou seja, é um recurso renovável. Sua síntese envolve três reações: duas esterificações, a primeira entre o óleo de mamona e o amido, e a segunda com óleo de soja. O produto obtido, um poliol, deve reagir ainda com um isocianato (NCO) para que se chegue a uma espuma poliuretana biodegradável a bioespuma.
    Trata-se de um polímero caracterizado principalmente pela ligação química uretana (RNHCOOR), que lhe dá rigidez e flexibilidade. É a ligação uretana a principal responsável pelas propriedades físicas da bioespuma, como textura, densidade, resistência à compressão e resiliência. Essas características assemelham-se muito às do isopor. Trata-se de um intermediário entre a espuma tradicional e o isopor, plenamente capaz de substituí-lo, explica Ricardo Vicino, químico responsável pela descoberta do composto.
    Já a bioespuma se decompõe em um tempo consideravelmente menor. Testes feitos na empresa mostraram que entre oito meses e um ano ela desaparece totalmente no meio ambiente. Durante o verão esse tempo pode ser reduzido a até três meses, garante Vicino. Assim, o material pode ser classificado como biodegradável.



    Brasil bate novo recorde na reciclagem de latas de alumínio

    EcoD
    Somente 17 em cada mil latinhas de alumínio consumidas no Brasil em 2011 foram parar no lixo. O índice de reciclagem de 98,3% atingiu um novo recorde e continua garantindo a liderança do país no setor, segundo informações do Valor Econômico. Em 2010, o percentual foi de 97,6%.
    Na realidade, de acordo com o diretor executivo da Abralatas (Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade), Renault de Freitas Castro, o Brasil pode considerar que toda a latinha consumida vai para a reciclagem. Isso porque não são contabilizadas as latas utilizadas para outros fins, como artesanato e fundições caseiras.
    Por ano, a reciclagem gera um incremento de R$ 645 milhões na economia e economiza 3.780 GWh de energia, ao dispensar a utilização de mais matéria-prima para fabricação de novas latinhas, 95% a menos do que uma nova.
    Por ser reciclável infinitamente sem perder a qualidade, a latinha também é o material mais reciclado internamente. O plástico PET, que ocupa a segunda posição, possui índices bem menores, com a reciclagem de 56% do material consumido.
    A indústria brasileira reciclou no ano passado 18,4 bilhões de latas de alumínio, o equivalente a 50,4 milhões por dia, de acordo com a Abal (Associação Brasileira de Alumínio). Logo abaixo do Brasil, figuram na lista de recicladores o Japão, com o percentual de 92,6%, e a Argentina, com 91,1%. A Europa possui uma média 66,7%, pouco acima dos Estados Unidos (65,1%).
    A reciclagem, que é estimulada neste setor no país há duas décadas, é feita essencialmente da coleta dos catadores de materiais recicláveis, responsáveis por encaminhar 85% das latinhas à reciclagem. Anualmente, a reciclagem gera um incremento de R$ 645 milhões na economia e economiza 3.780 GWh de energia, ao dispensar a utilização de mais matéria-prima para fabricação de novas latinhas, 95% a menos do que uma nova.
    (EcoD)

    El hambre: desafío ético y político


    El hambre: desafío ético y político

    01/11/2012
     
    A causa de la contracción económica provocada por la crisis financiera actual, el número de hambrientos ha saltado, según la FAO, de 860 millones a 1.200 millones. Tal hecho perverso impone un desafío ético y político. ¿Cómo atender las necesidades vitales de estos millones y millones de personas?
    Históricamente este desafío siempre ha sido grande, pues la necesidad de satisfacer las demandas de alimento nunca ha podido ser plenamente atendida, sea por razones de clima, de fertilidad de los suelos o de desorganización social. A excepción de la primera fase del paleolítico cuando había poca población y superabundancia de medios de vida, siempre ha habido hambre en la historia. La distribución de alimentos ha sido casi siempre desigual.
    El flagelo del hambre no es propiamente un problema técnico. Existen técnicas de producción de extraordinaria eficacia. La producción de alimentos es superior al crecimiento de la población mundial, pero están pésimamente distribuidos. El 20% de la humanidad dispone para su disfrute del 80% de los medios de vida. El 80% de la humanidad debe contentarse con solo el 20% de ellos. Aquí reside la injusticia.
    Lo que ocasiona esta situación perversa es la falta de sensibilidad ética de los seres humanos hacia sus semejantes. Es como si hubiésemos olvidado totalmente nuestros orígenes ancestrales de la cooperación originaria que nos permitió ser humanos.
    Este déficit de humanidad resulta de un tipo de sociedad que privilegia al individuo sobre la sociedad, valora más la apropiación privada que la coparticipación solidaria, más la competición que la cooperación, que da más centralidad a los valores ligados a lo masculino (en el hombre y en la mujer) como la racionalidad, el poder, el uso de la fuerza, que a los valores ligados a lo femenino (también en el hombre y en la mujer) como la sensibilidad hacia los procesos de la vida, el cuidado y la disposición la cooperación.
    Como se deduce, la ética vigente es egoísta y excluyente. No se pone al servicio de la vida de todos y de su necesario cuidado, sino que está al servicio de los intereses de algunos individuos o grupos con exclusión de otros.
    En la raíz del flagelo del hambre hay una inhumanidad básica. Si no se fortalece una ética de la solidaridad, del cuidado de unos a otros no habrá modo de superarla.
    Es importante considerar que el desastre humano del hambre es también de orden político. La política tiene que ver con la organización de la sociedad, con el ejercicio del poder y con el bien común. Desde hace siglos en Occidente, y hoy de manera globalizada, el poder político es rehén del poder económico, articulado en la forma capitalista de producción. La ganancia no es democratizada en beneficio de todos, sino privatizada por aquellos que detentan el tener, el poder y el saber; sólo secundariamente beneficia a los demás. Por tanto, el poder político no sirve al bien común, crea desigualdades que representan una real injusticia social, y hoy mundial. A consecuencia de esto, para millones y millones de personas apenas sobran las migajas que no dan para cubrir sus necesidades vitales. O simplemente mueren como consecuencia de las enfermedades derivadas del hambre, en su mayoría criaturas inocentes.
    Si no se produce una inversión de valores, si no se instaurara una economía sometida a la política y una política orientada por la ética y una ética inspirada en una solidaridad básica no habrá posibilidad de solución para el hambre y la subnutrición mundial. Gritos desgarradores de millones de hambrientos suben continuamente a los cielos sin que vengan respuestas eficaces de parte alguna y hagan callar ese clamor.
    Por último, hay que reconocer que el hambre resulta también del desconocimiento de la función de las mujeres en la agricultura. Según la evaluación de la FAO ellas son las que producen gran parte de lo que se consume en el mundo: el 80% – 98% en el África subsahariana, el 50% – 80% en Asia y el 30% en Europa central y del este. No habrá seguridad alimentaria sin mujeres agricultoras, si no se les da más poder de decisión sobre los destinos de la vida en la Tierra. Ellas representan el 60% de la humanidad. Por su naturaleza de mujeres están más ligadas a la vida y a su reproducción. Es absolutamente inaceptable que por el hecho de ser mujeres se les nieguen los títulos de propiedad de tierras y el acceso a los créditos y a otros bienes culturales. Sus derechos reproductivos tampoco son reconocidos y se les impide el acceso a los conocimientos técnicos concernientes a la mejora de la producción de alimentos.
    Sin estas medidas sigue siendo válida la crítica de Gandhi: «el hambre es un insulto; envilece, deshumaniza y destruye el cuerpo y el espíritu… si no la propia alma; es la forma de violencia más asesina que existe».
    Leonardo Boff es autor el libro Comer y beber juntos y vivir en paz, Sal Terrae 2006.
    Traducción de José María Gavito

    Frei Betto: a morte anunciada dos Guarani-Kaiowá


    Frei Betto: a morte anunciada dos Guarani-Kaiowá

    03/11/2012
    Frei Betto sempre esteve ao lado dos oprimidos e dos ameaçados de extinção como os indígenas. Aqui apresenta claramente o conflito que envolve os Guarani-Kaiowá, estes ameaçando suicídio coletivo caso suas demandas por terra não forem atendidas. São duas visões de mundo que se confrontam: aquela dos ruralistas que representam a perspectiva da terra como meio de produção numa lógica utilitarista e mercantil; a dos povos originários que veem a terra como prolongamento do corpo, como viva e “mãe do índio” como costumam dizer. Precisamos aprender desses representantes originários como entreter uma relação diferente para com a Terra, entendida como Gaia, Pacha Mama e Grande Mãe que nos dá gratuitamente tudo o que precisamos. Mãe não pode ser comprada, vendida ou tratada de qualquer jeito. Mãe é para ser venerada, respeitada e amada. Assim deve ser  com a Magna Mater, a boa e generosa Mãe Terra. LBoff
    *****************
    A Justiça revogou a ordem de retirada de 170 índios Guarani-Kaiowá das terras em que habitam no Mato Grosso do Sul. Em carta à opinião pública, eles apelaram: “Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo”.
             A  morte precoce, induzida – o que nós, caras-pálidas, chamamos de suicídio – é  recurso frequente adotado pelos Guarani-Kaiowá para resistirem frente às  ameaças que sofrem. Preferem morrer que se degradar. Nos últimos vinte anos,  quase mil indígenas, a maioria jovens, puseram fim às suas vidas, em protesto  às pressões de empresas e fazendeiros que cobiçam suas  terras.
            A  carta dos Guarani-Kaiowá foi divulgada após a Justiça Federal determinar a  retirada de 30 famílias indígenas da aldeia Passo Piraju, em Mato Grosso do  Sul. A área é disputada por índios e fazendeiros. Em 2002, acordo mediado pelo  Ministério Público Federal, em Dourados, destinou aos índios 40 hectares  ocupados por uma fazenda. O suposto proprietário recorreu à  Justiça.
             Segundo o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), vinculado à CNBB, há que  saber interpretar a palavra dos índios: “Eles falam em morte coletiva (o que é  diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a  Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los  de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais  abandoná-las”, diz a nota.
            Dados  do CIMI indicam que, entre 2003 e 2011, foram assassinados, no Brasil, 503  índios. Mais da metade – 279 – pertence à etnia Guarani-Kaiowá. Em protesto, a  19 de outubro, em Brasília, 5 mil cruzes foram fincadas no gramado da  Esplanada dos Ministérios, simbolizando os índios mortos e  ameaçados.
          São  comprovados os assassinatos de membros dessa etnia por pistoleiros a serviço  de fazendeiros da região. Junto ao rio Hovy, dois índios foram mortos  recentemente por espancamentos e torturas.
            A  Constituição abriga o princípio da diversidade e da alteridade, e consagra o  direito congênito dos índios às terras habitadas tradicionalmente por eles.  Essas terras deveriam ter sido demarcadas até 1993. Mas, infelizmente, a  Justiça brasileira é extremamente morosa quando se trata dos direitos dos  pobres e excluídos.
            Um quarto de século após a aprovação da carta  constitucional, em 1988, as terras dos Guarani-Kaiowá ainda não foram  demarcadas, o que favorece a invasão de grileiros, posseiros e agentes do  agronegócio.
           Participei, no governo Lula, de  toda a polêmica em torno da demarcação da Raposa Serra do Sol. Graças à  decisão presidencial e à sentença do Supremo Tribunal Federal, os fazendeiros  invasores foram retirados daquela reserva indígena.
           No caso dos Guarani-Kaiowá não se vê, por enquanto, a  mesma firmeza do poder público. Até a Advocacia Geral da União, responsável  pela salvaguarda dos povos indígenas – pois eles são tutelados pela União –  chegou a editar portaria que, na prática, reduz a efetivação de vários  direitos.
           O argumento dos inimigos de nossos povos  originários é que suas terras poderiam ser economicamente produtivas. Atrás  desse argumento perdura a ideia de que índios são pessoas inúteis,  descartáveis, e que o interesse do lucro do agronegócio deve estar acima da  sobrevivência e da cultura desses nossos ancestrais.
          Os índios não são estrangeiros nas terras do  Brasil. Ao chegarem aqui os colonizadores portugueses – equivocamente  qualificados nos livros de história de “descobridores” – se depararam com mais  de 5 milhões de indígenas, que dominavam centenas de idiomas distintos. A  maioria foi vítima de um genocídio implacável, restando hoje, apenas, 817 mil  indígenas, dos quais 480 mil aldeados, divididos entre 227 povos que dominam  180 idiomas diferentes e ocupam 13% do território brasileiro.  
            Não adianta o governo brasileiro assinar  documentos em prol dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável se  isso não se traduzir em gestos concretos para a preservação dos direitos dos  povos indígenas e de nosso meio ambiente.
            Bem fez a presidenta Dilma ao efetuar cortes no  projeto do novo Código Florestal aprovado pelo Congresso. Entre o agrado a  políticos e os interesses da nação e a preservação ambiental, a presidente não  relutou em descartar privilégios e abraçar direitos coletivos.  
           Resta agora demonstrar a mesma firmeza na  defesa dos direitos desses povos que constituem a nossa raiz e que marcam  predominantemente o DNA do brasileiro, conforme comprovou o Projeto Genoma  Humano.
    Frei Betto é escritor, autor da novela indigenista  “Uala, o amor” (FTD), entre outros livros.